Os cidadãos israelenses souberam em primeira mão que o país estava atacando o Irã. No sábado, às 8h14 da manhã, enquanto mísseis atingiam Teerã, os escandalosos ruídos dos telefones celulares soaram com a mensagem de “alerta extremo”, que podia ser lida em hebraico, inglês, russo e árabe. Embora muita gente tenha corrido para os abrigos, era apenas um aviso pedindo que a população verificasse o local seguro mais próximo, que instalasse o aplicativo oficial de retaguarda e que só viajasse em casos imprescindíveis. Diante da ameaça iminente de guerra, não foi difícil chegar à óbvia conclusão: Israel havia entrado em confronto com seu histórico inimigo, com as autoridades alertando que o ataque “preventivo” não ficaria sem resposta. Menos de uma hora depois, as sirenes espalhadas por todo o país começaram a uivar. Era um prenúncio, não apenas dos bombardeios, mas de que a rotina de quase 10 milhões de pessoas passaria a ser marcada pelos protocolos de segurança e, como não poderia deixar de ser, pela constante apreensão.
Não há sossego. Cerca de 2 000 quilômetros separam os dois países, e, toda vez que o exército israelense detecta o lançamento de foguetes e drones suicidas iranianos, um primeiro aviso é disparado pelo smartphone. Entre dez e doze minutos depois, quando os projéteis alcançam o céu israelense, ligam-se os alarmes nos locais onde se estima que eles possam cair e ativa-se o Domo de Ferro, o sistema de defesa antiaérea. Nesse ponto, resta apenas 1 minuto para correr para debaixo da terra. “Era uma guerra esperada, mas nem por isso deixa de ser angustiante ter de ir para o abrigo tantas vezes, de dia e de noite”, diz Ruth Cohen, 41 anos, que vive com sua companheira, dois gatos e um cachorro em um prédio antigo no centro de Tel Aviv. O abrigo mais próximo fica três edifícios abaixo na mesma rua, o que exige uma corrida de quatro minutos para chegar. “Saímos quando toca o telefone, jamais esperamos as sirenes”, diz Ruth.
As constantes ameaças internacionais modificaram, já há algum tempo, a paisagem urbana. Desde 1992, uma norma obriga que as residências tenham um quarto seguro, com paredes, teto e piso de concreto reforçado, além de venezianas e porta de aço. Nas zonas fronteiriças com Gaza, Líbano e Síria, a cada poucos metros há bunkers portáteis de rápido acesso. Nas grandes cidades, estações de metrô e estacionamentos foram adaptados para socorrer os moradores. Espaços que se tornaram locais de convivência entre vizinhos, dada a profusão de alertas sonoros. “Detesto quando as pessoas ficam passando informações em voz alta”, diz Shlomo Katz, 43 anos, pai de dois filhos, cuja saúde mental tenta preservar. “Já é suficiente ter de lidar com o medo e o barulho das explosões.” Para quem já viveu outras situações dramáticas, as cenas atuais soam como um triste déjà vu. “Quando criança, me escondi dos nazistas para sobreviver e agora sou obrigada a ficar escondida, confinada”, lembra Irene Shashar, 88 anos, sobrevivente do gueto de Varsóvia. Ela, porém, faz questão de acrescentar: “Esta guerra é muito justificada, temos obrigação de vencê-la para as gerações futuras”.
Ao norte, do outro lado da fronteira, o cenário é ainda mais tenso. Diante do comunicado de que Israel tomaria áreas do sul do Líbano para isolar o grupo terrorista Hezbollah, apoiado pelo Irã, milhares de famílias deixaram suas casas rumo à Beirute. O curto trajeto, que costuma levar uma hora, se multiplicou por 15, em função dos congestionamentos. Em Dahieh, reduto densamente povoado e sob domínio da milícia xiita, nos arredores da capital, moradores fugiram com a roupa do corpo. Na Praça dos Mártires, Abu Yehya, um trabalhador braçal de 41 anos lamentava não saber para onde se dirigir com os filhos — todos os abrigos visitados estavam lotados. “Talvez sigamos para um parque. Pelo menos haverá sombra”, afirmou. Segundo o governo, cerca de 83 000 pessoas deixaram suas casas. Hanane Farfour, 42 anos, se recusou a fazer o mesmo. Moradora do sul do país, ela decidiu permanecer junto dos filhos e dos pais idosos. “Somos profundamente ligados à nossa região. Permanecer é resistir”, diz.
Na esteira da tática iraniana de espalhar os ataques e, assim, fazer com que países aliados de Israel e Estados Unidos pressionem pelo fim do conflito, o pavor se espalhou. Normalmente alheia à costumeira tensão do Oriente Médio, a glamourosa Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, foi atingida no domingo 1°. O aeroporto local e os hotéis cinco-estrelas Fairmont Dubai e Burj Al Arab, o icônico empreendimento construído em Palm Jumeirah, a famosa ilha artificial em forma de palmeira, registraram incêndios. “Vimos fumaça, fogo e mísseis passando”, conta o empresário capixaba José Carlos Bergamin, 77 anos, embarcado em um cruzeiro que deveria percorrer o Golfo Pérsico. “Ninguém dormiu direito.” A julgar pela dimensão do conflito, o sono de alguns milhões de pessoas deve demorar a voltar, infelizmente.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985
