Milei se coloca em desvantagem para proteger assessor em momento delicado

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Nos contextos de corrupção tanto no Brasil quanto na Argentina, Manuel Adorni, que ocupa o cargo de chefe de gabinete de Javier Milei, pode ser considerado um personagem irrelevante. Ele está sob investigação por ter realizado um pagamento não declarado de 245 mil dólares em espécie para a reforma de uma casa localizada em um condomínio modesto – embora este apresente uma piscina com uma cascata que se tornou uma obsessão nacional, lembrando a polêmica dos jardins da Casa da Dinda durante a presidência de Fernando Collor.

A irmã de Milei, Karina, e o próprio presidente estão relutantes em fazer o que muitos esperariam: sacrificar Adorni. “Não vou entregar alguém no altar do orgulho dos jornalistas. Não vou sacrificar pessoas honestas”, provocou Milei, que mantém uma relação tensa com a mídia. Apesar disso, as investigações conduzidas por jornalistas independentes sobre as alegações de enriquecimento ilícito envolvendo seu chefe de gabinete falam por si só.

A senadora Patricia Bullrich, que já foi ministra da Segurança Pública e é aliada do governo, também opinou que Adorni deve esclarecer urgentemente a origem dos recursos que financiaram suas atividades imobiliárias.

Casos em que o poder cega seus representantes ao clamor público são comuns. Milei tornou-se mais um exemplo desse fenômeno, agravado pelo fato de sua ascensão política abrupta — passando de economista polêmico em debates televisivos a presidente — ter sido construída sob a promessa de não ser parte da “casta”, como ele mesmo descrevia aqueles que se beneficiam do Estado. Sua imagem excêntrica e seu projeto político inédito, fundamentado em uma abordagem ultralibertária, não carregavam ambições pessoais de enriquecimento.

ÍCONE INTERNACIONAL

Atualmente, 66% da população argentina acredita que “o pacto anticasta foi quebrado e o governo agora faz parte da casta”. Essa é talvez a constatação mais prejudicial para Milei: ele se tornou aquilo que antes combatia.

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Outros dados alarmantes: apenas 35,5% dos argentinos aprovam o desempenho do presidente, enquanto 63% desaprovam. Em contraste, seu principal concorrente, Axel Kicillof, governador da província de Buenos Aires, possui uma taxa de aprovação positiva de 47,7%. Esse cenário é altamente desfavorável para Milei na corrida pela reeleição em 2027.

No momento, ele ainda conta com quatro pontos à frente do possível candidato peronista; no entanto, nenhuma força política ultrapassa os 30%. Será possível inverter essa situação até lá? Milei já surpreendeu os adversários com sua vitória nas eleições legislativas do mês passado e continua contando com uma base fiel. Além disso, as promissoras reservas de gás e petróleo em Vaca Muerta oferecem perspectivas otimistas.

No entanto, as possibilidades de recuperação da imagem presidencial diminuem à medida que os eleitores se esquecem das dificuldades enfrentadas antes dele assumir o cargo — quando o país lidava com hiperinflação — e começam a perceber os desafios atuais. A inflação ainda afeta o poder aquisitivo da população, mesmo com um controle anual estabelecido em 32%.

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A situação crítica foi evitada, mas muitos argentinos sentem que suas vidas continuam difíceis. As pessoas se preocupam mais em pagar suas contas do que em ver Milei se transformar em um símbolo internacional do liberalismo por meio de palestras e prêmios ao redor do mundo.

As crescentes suspeitas sobre corrupção aumentam o desconforto entre os cidadãos e podem ameaçar o maior trunfo de Milei: a comunicação direta com um eleitorado que buscou mudança e apostou em alguém completamente diferente para romper com a sensação de continuidade na política tradicional. A cascata atribuída a Manuel Adorni — definida como “Uns caninhos” por Milei — se tornou um símbolo amplamente comentado dessa transição negativa.

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