Na quinta-feira, 3, o presidente da Argentina, Javier Milei, anunciou medidas que visam punir empresas de petróleo que realizam atividades de perfuração nas Ilhas Malvinas. Essa decisão eleva a tensão nas relações entre a Argentina e o Reino Unido, que controla as ilhas desde 1833.
Milei enfatizou que as Malvinas são parte do futuro da Argentina e revelou sua intenção de apresentar um projeto de lei ao Congresso. Esta proposta busca “defender a soberania nacional”, aumentando as penalidades para operações não autorizadas nas ilhas, intensificando as sanções contra fornecedores e ampliando a legislação para incluir outras atividades que possam impactar os recursos naturais argentinos.
<spanEle destacou que a exploração petrolífera na região representa uma ameaça iminente aos interesses argentinos, especialmente após 44 anos da guerra de 10 semanas contra o Reino Unido pela posse do território britânico, situado a 600 quilômetros da costa da Argentina.
“Essa ameaça não deve ser subestimada”, disse o presidente argentino, referindo-se ao fato de que o Reino Unido está passando por um processo de “declínio”. Essa declaração foi feita em meio à oposição do governo argentino ao projeto de exploração Sea Lion, que é promovido pela empresa britânica Rockhopper em parceria com a israelense Navitas, localizado a 220 quilômetros das Malvinas.
Milei também mencionou que pretende “aumentar as sanções e punições para empresas envolvidas em atividades não autorizadas” e anunciou planos para estabelecer uma base naval na província da Terra do Fogo. Em seu discurso, ele ressaltou que os habitantes das ilhas, considerados “uma população asentada em território usurpado”, não têm direito legítimo à autodeterminação.
O presidente argentino, conhecido por seu alinhamento com Donald Trump, indicou uma possível mudança na estratégia dos Estados Unidos e afirmou que “ventos de mudança” poderiam beneficiar a reivindicação argentina sobre as Malvinas. Essa declaração ocorreu poucos dias após Trump sugerir que poderia retirar o apoio britânico em relação à soberania do arquipélago.
Posição britânica e influência de Trump
No mesmo dia, Ed Miliband, ministro das Relações Exteriores britânico, manifestou-se no X (anteriormente Twitter), afirmando que “as ilhas pertencem ao Reino Unido e assim permanecerão, pois essa é a vontade da grande maioria dos habitantes”. Ele destacou ainda que o direito à autodeterminação dos islandeses é fundamental e amparado pelo direito internacional.
Wes Streeting, ministro da Defesa britânico, comentou que a postura de Milei reflete unicamente “a política interna argentina”.
A disputa pela soberania das Ilhas Malvinas é reconhecida internacionalmente por meio de uma resolução da ONU datada de 1965. Esse documento pede aos dois países para evitarem decisões unilaterais e buscarem uma solução diplomática para o impasse.
Até agora, os Estados Unidos e outros países ocidentais reconhecem o domínio britânico sobre as ilhas, mas ainda não se posicionaram claramente sobre sua soberania contestada pela Argentina.
Em uma recente entrevista à emissora GB News, Trump criticou publicamente a falta de suporte militar do Reino Unido na sua luta contra o Irã, sem confirmar se apoiaria Londres em um eventual novo conflito com a Argentina.
“Não tenho certeza se vocês estão preparados para lutar novamente pelas ilhas”, declarou Trump. “As Malvinas são um tema interessante porque o seu país (o Reino Unido) já não é mais o mesmo desde 20 ou 25 anos atrás.”
A possibilidade de uma mudança na postura dos EUA em relação às Malvinas está sendo considerada pelo Pentágono como parte das estratégias para pressionar aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
“A questão das Malvinas serve como um meio para Trump pressionar Londres sobre suas exigências relacionadas ao financiamento da Otan e à colaboração na guerra contra o Irã”, explicou o cientista político Tomás Mugica, diretor do Centro de Estudos Internacionais da Universidade Católica Argentina.
Causa nacional argentina
A disputa entre Argentina e Reino Unido pela soberania sobre as Ilhas Malvinas remonta ao conflito ocorrido em 1982. A guerra resultou na rendição do governo argentino depois de 74 dias intensos de combate, nos quais perderam suas vidas 649 argentinos e 255 britânicos.
Após mais de quarenta anos desde então, o tema continua sendo extremamente sensível no contexto argentino. Durante a Copa do Mundo de 2026, por exemplo, jogadores da seleção argentina levantaram uma faixa com a frase “As Malvinas são argentinas” após vencerem os ingleses por 2-1 nas semifinais.
Milei aborda essa questão em um momento delicado para seu governo, já que sua popularidade está em queda com eleições se aproximando onde buscará reeleição. Pesquisas recentes mostram uma aprovação governamental em torno de 34%, com um índice de desaprovação alcançando 55%.
No presente momento, o campo petrolífero Sea Lion está sob operação da Navitas Petroleum e conta com acionistas como Rockhopper Exploration. Desde 2010, quando foram realizadas as primeiras descobertas no local, o governo argentino considera essas atividades ilegais. Estimativas apontam que esse campo possui cerca de 1,7 bilhão de barris de petróleo disponíveis, configurando-se assim como uma descoberta significativa no cenário global.
Nesta manhã, as ações da Rockhopper caíram 6%, enquanto os papéis da Navitas sofreram um recuo de 2%. Ambas as empresas informaram estar operando com licenças válidas para suas atividades petrolíferas.
