Alemanha busca revitalizar o ‘Made in Germany’ para enfrentar a concorrência chinesa

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Em 1887, a expressão Made in Germany foi criada pelos britânicos para marcar os produtos da Alemanha que competiam com sua dominância industrial. Inicialmente, o objetivo era alertar os consumidores sobre esses itens. No entanto, com o passar dos anos, essa etiqueta se transformou em um símbolo de qualidade, associado a automóveis de alto padrão, máquinas de precisão e produtos químicos sofisticados. Mais de cem anos depois, a nação que converteu desconfiança em prestígio agora enfrenta desafios consideráveis.

A China, que anteriormente era uma importante compradora de produtos alemães, começou a competir nos mesmos mercados oferecendo mercadorias mais acessíveis e de qualidade crescente. Em 2000, as exportações alemãs representavam 8,7% do total mundial, mais do que o dobro da participação chinesa, que era de 3,9%. No entanto, até 2025, a parcela das exportações alemãs caiu para 6,7%, enquanto a da China subiu para 14,4%, conforme informações da Organização Mundial do Comércio. Assim, a dinâmica desse comércio se inverteu.

Essa mudança é preocupante uma vez que a indústria representa cerca de 20% da economia da Alemanha, uma participação superior à registrada na França e no Reino Unido. Além disso, as transações de importação e exportação correspondem a mais de 80% do PIB do país. Nos Estados Unidos, essa proporção é cerca de 25%. Segundo o economista Eduardo Mello da Fundação Getulio Vargas em São Paulo: “A Alemanha é especialmente forte em inovação incremental, como melhorar automóveis e máquinas precisas. O desafio está no fato de seu modelo econômico não ser muito flexível diante das inovações disruptivas que dominam os investimentos globais”.

A indústria automobilística ilustra bem esse descompasso. Durante muitos anos, montadoras alemãs compartilharam conhecimento e tecnologia com empresas chinesas; em troca disso, venderam milhões de veículos para a crescente classe média chinesa. Contudo, as fabricantes locais aprenderam rapidamente e investiram em suas capacidades — hoje conseguem lançar novos modelos em até dezoito meses ou menos, bem menos tempo do que muitas montadoras ocidentais. Como resultado da concorrência chinesa, a produção automotiva na Alemanha caiu 27,8% entre 2016 e 2025. Um fenômeno semelhante pode ser observado nos setores de máquinas industriais, energia solar, baterias e dispositivos médicos.

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A invasão da Ucrânia em 2022 agravou ainda mais essa situação ao aumentar os custos produtivos. As indústrias alemãs eram dependentes do gás russo fornecido a preços acessíveis. Com as sanções impostas contra Moscou, esse fornecimento foi severamente comprometido afetando setores que consomem muita energia. Empresas químicas como a Basf diminuíram suas operações no país e redirecionaram parte dos investimentos para outros mercados. Além disso, existem barreiras internas: altos impostos e custos trabalhistas elevados, atrasos na concessão de licenças e uma infraestrutura digital deficiente complicam ainda mais o cenário empresarial. A diminuição da população ativa também limita o número de profissionais qualificados disponíveis no mercado. Embora a imigração possa ajudar a mitigar essa escassez laboral, o tema é controverso na polarizada política alemã. O resultado é uma economia estagnada: nos últimos dez anos, o crescimento médio anual do PIB foi apenas de 0,8%.

Diante dessa realidade desafiadora, o chanceler Friedrich Merz do partido União Democrata Cristã decidiu implementar um conjunto de medidas visando romper as limitações fiscais que fazem da Alemanha um dos países menos endividados entre as principais economias ocidentais. Seu plano para revitalizar o país inclui três componentes principais. O primeiro deles é impulsionar os investimentos públicos. Antes mesmo de assumir o cargo em maio de 2025, Merz promoveu uma alteração constitucional para criar um fundo extraordinário com autorização para contrair até 500 bilhões de euros (aproximadamente 3 trilhões de reais) em empréstimos ao longo dos próximos doze anos. Os detalhes sobre como esse recurso será utilizado para modernizar ferrovias, estradas e infraestrutura digital começaram a ser divulgados pelo governo em julho deste ano.

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A segunda medida foca na diminuição dos custos relacionados aos investimentos e à produção no território nacional. Entre as iniciativas aprovadas está uma nova regra permitindo às empresas descontar mais rapidamente seus gastos com equipamentos até 2027. A partir de 2028 está previsto um corte gradual na alíquota federal sobre lucros corporativos — atualmente fixada em 15% — reduzindo-a para 10% até 2032. No setor energético foram destinados 6,5 bilhões de euros para subsidiar tarifas das redes elétricas em 2026; além disso foi eliminada uma sobretaxa sobre o armazenamento de gás e mantida uma tarifa reduzida sobre eletricidade destinada à indústria.

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O terceiro pilar envolve apoio ao desenvolvimento tecnológico voltado para revitalizar a base industrial do país. Para este ano foram alocados 17 bilhões de euros destinados à pesquisa e desenvolvimento focando especialmente em inteligência artificial, semicondutores e novas descobertas científicas aplicáveis ao mercado emergente. A indústria bélica emergiu como um dos pilares dessa estratégia; espera-se que os gastos federais nesse setor alcancem quase 83 bilhões de euros até 2026 — cerca de 30 bilhões acima das previsões anteriores — não apenas reforçando a defesa nacional durante um período tenso com Moscou mas também beneficiando empresas alemãs dos setores armamentista e tecnológico.

Além disso, Berlim busca diversificar seus parceiros comerciais para diminuir sua dependência dos compradores chineses. Merz tem incentivado as negociações dentro da União Europeia (UE) visando facilitar o acesso a novos mercados mais rapidamente. Um exemplo desse esforço é o acordo provisório recentemente implementado entre a UE e o Mercosul — bloco comercial que inclui o Brasil — além do acordo firmado pela UE com a Índia em janeiro deste ano que pode aumentar as exportações europeias em até 58 bilhões de euros anualmente.

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A eficácia das iniciativas apresentadas pelo governo alemão dependerá muito da rapidez e determinação com que serão executadas. Marcelo Cabral CEO da gestora Stratton Capital observa: “O problema reside no embate ideológico que paralisa o sistema político alemão tornando-o incapaz de implementar reformas estruturais”. Contudo,a decadência não é um destino inevitável: A Alemanha ainda possui universidades renomadas,e trabalhadores qualificados além das grandes corporações globais estreitamente ligadas à pesquisa industrial.No entanto,paises vizinhos como Suíça,Holanda ou integrantes da Escandinávia conseguiram modernizar seu mercado laboral ,facilitando processos empresariais enquanto preservavam sua proteção social.”A Alemanha precisa se reinventar para definir seu papel no mercado global frente ao crescimento chinês.Ainda exportamos bastante,más já não sabemos exatamente qual caminho queremos seguir”, alerta Kai Enno Lehmann,cientista político universitário.”Para recuperar seu dinamismo,a Alemanha precisará abandonar práticas antigas,e escolher quais indústrias deseja liderar futuramente.O país deve provar que o selo Made in Germany continua relevante.”

Publicado em VEJA , setembro de 2026 , edição VEJA Negócios nº30

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