Nos últimos 24 horas, aproximadamente 60 mil imigrantes do Marrocos chegaram ao enclave espanhol de Ceuta, levando nações europeias a considerar o fechamento de suas fronteiras com a Espanha. A França anunciou nesta sexta-feira, 31, que enviará reforços para aumentar a segurança em suas fronteiras, enquanto o governo italiano, liderado pela extrema direita, está avaliando a possibilidade de suspender o acordo de Schengen, que facilita a movimentação livre entre países da União Europeia. É importante ressaltar que os enclaves de Ceuta e Melilla operam sob um regime especial.
A adesão da Espanha ao Espaço Schengen em 1990 estabelece que o governo espanhol deve implementar uma nova fase de controles nas fronteiras antes que os viajantes ingressem no território continental ou em qualquer outro membro do bloco europeu. Segundo estimativas do Ministério do Interior espanhol, cerca de 25 mil pessoas retornaram ao Marrocos nesta sexta-feira como parte das medidas para conter o fluxo migratório. Se confirmado, esse número representaria quase metade dos indivíduos que se acredita terem cruzado a fronteira recentemente.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, qualificou as imagens vindas de Ceuta como “inaceitáveis”. Ela afirmou: “Não podemos permitir que ninguém entre na nossa União sem obedecer às nossas regras. As travessias perigosas precisam parar imediatamente. Redes de tráfico humano devem ser desmanteladas e os retornos devem ser rápidos, conforme nossas normas permitem.” Em uma postagem no X (ex-Twitter), ela mencionou que dois comissários foram designados para auxiliar no controle da situação e que já existem diálogos com Madri e o governo marroquino para alcançar “resultados concretos”.
Espaço de Schengen
A França também tomou medidas em resposta à crise em Ceuta, anunciando um aumento na vigilância na fronteira com a Espanha. O ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, declarou: “Após observar a situação em Ceuta, ordenei ontem à noite um reforço imediato nos controles na fronteira espanhola. Ademais, estou ativando a Força de Intervenção Rápida de Fronteira para realizar verificações mais rigorosas.”
A candidata presidencial de extrema direita francesa, Marine Le Pen, do partido Reagrupamento Nacional, aproveitou a situação para fazer campanha. Ela afirmou: “Em 2027, acabaremos com essa loucura e restringiremos o acesso ao Espaço Schengen apenas aos cidadãos da União Europeia”, referindo-se às eleições do próximo ano. A imigração ilegal tem sido um tema central para candidatos ultraconservadores e nacionalistas na Europa e além.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, também comentou sobre as imagens provenientes de Ceuta, classificando-as como “chocantes” e afirmando nas redes sociais que a “imigração desenfreada” é uma ameaça à segurança europeia. Ela mencionou que a Itália está considerando suspender o acordo de Schengen com relação à livre circulação com a Espanha, embora não esteja claro como isso funcionaria na prática, dado que os dois países não compartilham uma fronteira direta.
O chanceler italiano posteriormente esclareceu sua posição ao afirmar que propõe a suspensão das regras de Schengen especificamente na fronteira Itália-Espanha e não uma exclusão total da Espanha do acordo.
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, também pediu à União Europeia que considere suspender sua cooperação no âmbito do Espaço Schengen. Em declarações veiculadas por veículos como Berlingske, TV2 e DR, ela enfatizou: “A União Europeia deve agir rapidamente e avaliar todas as opções disponíveis, incluindo a suspensão da cooperação dentro do Schengen”, visando evitar uma repetição da crise migratória enfrentada em 2015.
“A imigração descontrolada representa um risco tanto para a Europa quanto para a Dinamarca”, destacou Frederiksen.
No contexto da Alemanha, onde as fronteiras permaneceram abertas durante a crise dos refugiados em 2015, o chanceler Friedrich Merz afirmou que “proteger as fronteiras é essencial para combater a imigração ilegal”. Ele expressou sua expectativa clara de que todos os Estados-membros da União Europeia cumpram essa responsabilidade. “Estamos em contato com o governo espanhol sobre esta questão. A Espanha deseja e precisa controlar rapidamente a situação em Ceuta. Esperamos que o Marrocos aceite prontamente os migrantes ilegais”, completou.
<pEntretanto, o ex-chefe da política externa da União Europeia, Josep Borrell Fontelles, rejeitou qualquer sugestão de reformulação do Espaço Schengen ao declarar que tal ação é inviável segundo as leis europeias. “Nenhum Estado-membro pode suspender unilateralmente outro no acordo”, ressaltou Borrell em crítica contundente à proposta italiana. “Isso constituiria uma violação clara do princípio de lealdade cooperativa entre os membros”.
“Máfias do tráfico humano”
No cenário da crise migratória em Ceuta, o primeiro-ministro espanhol,Pedro Sánchez , atribuiu os eventos recentes à manipulação por parte das “máfias do tráfico humano” em relação a uma decisão judicial recente sobre repatriações de imigrantes marítimos.
Sánchez explicou que houve uma “disseminação nas redes sociais por parte dessas máfias”, apresentando uma interpretação distorcida de uma determinação do Supremo Tribunal Espanhol. De acordo com essa decisão judicial, “indivíduos que ingressam em nosso território pelo mar não têm direito à repatriação”, destacou ele. O líder socialista enfatizou ainda que essa interpretação equivocada se espalhou rapidamente nas últimas horas.
Sánchez também caracterizou como um “ataque à integridade territorial da Espanha” o influxo massivo dos 60 mil migrantes oriundos do Marrocos. “O governo espanhol apoia Ceuta”, garantiu ele. “Assumimos responsabilidade pela angústia emocional vivida por vocês nos últimos dias”.
A atual onda migratória marca o maior número registrado desde 2021 e ocorre após visita realizada por Sánchez à Argélia no dia 20 de julho — seu primeiro deslocamento ao país em quatro anos — depois de um período conturbado nas relações diplomáticas entre ambos.
No passado recente, mais de 10 mil migrantes tinham cruzado para Ceuta em maio de 2021 quando Rabat flexibilizou seus controles devido a uma crise diplomática relacionada ao Saara Ocidental.
A indignação marroquina havia sido gerada anteriormente quando a Espanha acolheu para tratamento médico o líder da Frente Polisário — apoiada pela Argélia — reivindicando independência para o Saara Ocidental.
A tensão diplomática foi resolvida somente em 2022 quando Madrid alterou sua postura diante dessa questão sensível ao reconhecer um plano proposto por Rabat para autonomia dessa antiga colônia espanhola.
